Órfãos da terra perde vigor e sofre com barriga

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Jamil (Renato Góes) e Laila (Julia Dalavia) em cena de Órfãos da Terra: acabou a empolgação inicial

Depois de um início elétrico, Órfãos da Terra agora sofre com uma barriga enorme, em que nada acontece, e não consegue mais segurar seu vigor. Melhor novela da Globo, a trama das seis chega à metade com bem menos fôlego. Redondo em termos de estrutura, com mais qualidades do que problemas, o folhetim de Thelma Guedes e Duca Rachid parece um corredor cansado no meio de uma maratona –ainda que tenha condições de recuperar a dianteira.

O autor Carlos Lombardi tem uma metáfora muito boa para explicar a dinâmica das novelas: trata-se de duas pessoas querendo ir para cama, e um monte de outras querendo impedir a consumação do fato. Em linhas gerais, os protagonistas de Órfãos da Terra não sofrem desse mal.

A história central de Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes) parece não sair do lugar, e os acontecimentos recentes da novela também não contribuem muito para fazer crescer um conflito interessante para o casal.

A vilã Dalila (Alice Wegmann) é calculista, fria e movimenta a novela, como deve fazer uma boa antagonista. Mas até agora só agiu pelas beiradas e não se opôs diretamente a Laila. A mocinha também só começou a desconfiar das intenções da rival há pouco tempo.

Nos capítulos recentes, a história principal de Órfãos da Terra (leia-se: a vingança de Dalila) está muito mais centrada em dramas coadjuvantes, como os de Faruq (Eduardo Mossri) e Miguel (Paulo Betti). Embora resvalem indiretamente no par principal, pouco afetam a trajetória dos dois.

Sara (Veronica Debom) e Ali (Mouhamed Harfouch): mais interessantes do que protagonistas

Uma possível aproximação da mocinha com o fotógrafo Bruno (Rodrigo Simas) também poderia render um conflito e tanto para o casal, deixando a protagonista dividida entre dois amores, mas o romance parece ter sido abortado pelas autoras. Na falta de interferências profundas, o casamento de Laila e Jamil segue sem muitos solavancos. Nada mais broxante para uma novela do que a normalidade.

Além disso, há o “quem matou” adormecido. As investigações para descobrir o assassino de Aziz (Herson Capri) não avançam, e a novela perde aqui uma chance de criar mais conflitos além das tramoias paralelas de Dalila.

Para não cair na chatice, Laila e Jamil precisam de um chacoalhão, assim como o que houve no núcleo cômico –um dos melhores entrechos da história, diga-se. A entrada de Latifa (Luana Martau) e mais recentemente de Omar (Miguel Nader) movimentou os personagens, dando ainda mais dinamismo a eles.

As situações não seguem esquetes repetitivas e cansativas e servem como um alívio pertinente ao drama dos refugiados. Complementadas por atuações sem exageros, as confusões envolvendo Sara (Veronica Debom), Ali (Mouhamed Harfouch) e Abner (Marcelo Medici) divertem, mas sozinhas não são capazes de segurar uma novela toda.

Órfãos da Terra continua sendo a melhor trama atualmente no ar na Globo, mas precisa perder a barriga para voltar a ficar em forma. Desmascarar a vilã –e torná-la ainda mais cruel– e movimentar o casal principal podem se revelar um estimulante e tanto para devolver o vigor à novela.